terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O papel que fala.

A interpretação tem limites. O que escrevemos num pedaço de papel pode impor ao intérprete alguma restrição nos sentidos possíveis que ele queria atribuir as nossas palavras. 

Fala-se nos dias atuais na impossibilidade de interpretar sem influenciar o que se interpreta. O intérprete não é neutro. O simples fato de observar altera o objeto observado.

Digo isto pois me deparei na estante com um livro escrito por Umberto Eco me chamou a atenção: "Os limites da interpretação". Logo na introdução o autor transcreve as palavras de John Wilkins que ilustra como a escrita é algo fascinante através de um conto de um Escravo Índio e resolvi compartilhar:

"Existe a Propósito, um bonito Conto a respeito de um Escravo Índio; o qual, enviado por seu Dono com um Cesto de Figos e uma Carta, comeu, ao longo do Caminho, grande parte de sua Carga, entregando o Resto à Pessoa a quem era dirigida; a qual, ao ler a Carta, e não encontrando a Quantidade de Figos correspondente ao que ali se dizia, acusou o Escravo de havê-los comido, referindo-lhe o que a Carta dissera contra ele. Mas o Índio (apesar da Prova) negou candidamente o Fato, maldizendo o Papel como Testemunha falsa e mentirosa.

Em seguida, novamente enviado com igual Carga, e com uma Carta que dizia o Número certo de Figos que deviam ser entregues, ele de novo, seguindo sua Prática precedente, devorou grande Parte deles ao longo do Caminho. Mas, antes de tocá-los (para prevenir qualquer possível Acusação) Ele pegou a Carta e escondeu-a debaixo de uma Pedra, certo de que, se Ela não o visse comer os Figos, jamais poderia relatar o que não vira; mas ao ser, desta feita, acusado ainda mais gravemente do que antes, confessou a Culpa, admirando a Divindade do Papel, e prometeu, para o futuro, a maior Fidelidade em toda  de Tarefa de que fosse incumbido" (Os limites da interpretação/ Umberto Eco; [tradução Pérola de Carvalho] - São Paulo: Perspectiva, 2010)

Umberto Eco, na obra citada, é da seguinte opinião: "o texto interpretado impõe restrições a seus intérpretes". 

O papel pode conversar com você tal como fez com o Escravo Índio.

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