quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Manual de sobrevivência

Que vivemos em cidade violenta nos já sabemos. O que poucos sabem é como se defender. Normal. Essa história de manual de sobrevivência em cidade grande é algo não explorado porque deixaria o cotidiano com cara de guerra civil. Mas não vivemos em uma guerra civil? Se você não pode sair de carro em determinado horário, não pode usar relógio em certos lugares ou vive assustado com qualquer correria ou barulho nas ruas é porque você vive em estado de guerra. Normal também. Aliás, essas pessoas hoje em dia podem ser chamadas de espertas. Pra viver na cidade do Rio de Janeiro você tem que ser esperto. Tem que estar esperto. Caso contrário será assaltado ou furtado mais cedo ou mais tarde.

Após sofrer uma tentativa de furto nesta semana, desenvolvi por conta própria um breve manual de ações para tentar evitar futuros problemas. É claro que esse manual não o deixa isento de assaltos ou furtos, mas com certeza diminuirá as chances do bandido. Antes contarei como aconteceu minha experiência desagradável. Ao entrar em um ônibus da linha 572 no Leblon me deparei com um sujeito tentando esconder o rosto com as mãos sentado ao lado da porta traseira. Mesmo achando aquela cena estranha, não me importei muito e sentei sozinho no primeiro banco depois da roleta. Ao entrar na rua Jardim Botânico me levantei pois tinha que descer em seguida. Quando cheguei perto da porta traseira, aquele sujeito que escondera a cara se levantou também junto com mais dois homens e se posicionou para descer do ônibus. Antes de chegar ao local de descida, um desses malandros deixou a mochila cair na minha frente na esperança de eu me abaixar pra pegar. Suspeitando algo estranho no ar, permaneci na mesma posição que estava e levemente coloquei minha mochila para frente - ela estava pendurada no meu ombro esquerdo. Ao fazer isso, aproveitei para abrir um espaço entre os sujeitos e eu. Quando desci do ônibus nem olhei para traz e me direcionei para atravessar a rua. Neste momento reparei que não havia descido ninguém comigo. E ao ligar os pontos da cena que acabara de acontecer, olhei minha mochila e ela estava com um dos bolsos abertos. No mesmo momento vasculhei-a para ver se estava faltando alguma coisa, mas tudo estava no lugar. Foi sorte ou esperteza? Um pouco dos dois. Os homens não tinham cara e nem jeito de bandido, mas por viver onde vivo desconfiei mesmo assim e por isso me safei. Dessa vez a história teve final feliz.

Portanto apresento a primeira regra do manual de sobrevivência. Sempre duvide das pessoas que estão ao seu redor. Qualquer um. Pode ser homem, mulher, idoso, adolescente. Os ratos – como prefiro chamar esses marginais – não vêm com placa dizendo “ASSALTANTE”. Cada vez mais eles se especializam em despistar as vítimas para ter sucesso. A segunda regra é se precaver. Não ande com carteira ou objetos de valor em lugares de fácil acesso. Separe o dinheiro da passagem antes de sair de casa ou do trabalho. Pague e caso haja troco coloque num bolso qualquer. Abrir carteira na frente de todos só desperta o interesse dos ratos. Evite ao máximo falar no celular quando estiver dentro de um ônibus. Dependendo da marca e do modelo você pode virar a vítima preferencial. E por fim, ande sempre antenado no que está acontecendo ao seu redor. Mas lembre-se. Estar ligado não quer dizer estar neurótico. Assim como os animais irracionais, os ratos sentem cheiro de medo. E se você tem medo é porque deve ter algo de valor. É muito importante manter a calma nesses momentos e se tiver que descer do ônibus antes da hora por achar que será assaltado não pense duas vezes. Dois reais e dez centavos a menos não vão te deixar mais pobre. E não há dinheiro no mundo que tire a sensação de frustração e raiva de alguém que foi roubado.

Por enquanto esse manual se restringe aos usuários de coletivos urbanos. Mas em breve prometo criar novos capítulos desse livro nada agradável, porém essencial. O que não vai faltar é pauta.

Fique ligado e boa sorte!!!

4 comentários:

Leo Saoli disse...

Fala Fred,
Tenho um conselho também, evite dormir no onibus! Mas caso ocorra, tenho uma técnica, ande sempre com um livro, abra ele numa página qualquer abaixe a cabeça como se estivesse lendo, e sonhe com o que quiser... rs
.
É preciso estar atento, a tudo. Principalmente numa cidade densa como o Rio de Janeiro...
.
vlw abs

Julio Cesar Oliveira disse...

Antes eu até dormia no ônibus, mas depois que me assaltaram...hehehe...eu só cohilo hahahahah.

Fred Alencar disse...

Dormir eu nunca consegui. Mas esta técnica do livro é boa também. Desde que o rato não tenha recalque de estudantes!!! ahahah
ele pode pensar: "que prayboy filho da puta. Lendo Lakann e eu aqui não consigo nem um livrinho do da nike. - Perdeu Prey...perdeu".

Beatriz disse...

Testemunho, Teoria e Crítica
São quase 30 anos de Rio e 9 assaltos! Nunca tive a "sorte" de ser furtada. As modalidades foram várias: arma na minha caneça, na de quem tava comigo, caco de vidro, ameaças de cunho sexual etc.
Minha teoria é de que não só mulheres são alvos preferidos, mas principalmente baixinhas. Nós baixinhas estamos em desvantagem c/ qualquer moleque de 13 anos.
Essa dica do troco no bolso nem sempre serve para nós mulheres. Quando o assunto é violência urbana, as mulheres levam a pior!
A crítica é quanto à questão da "guerra civil", creia-me, meu caro, o que você descreveu é muito ligth para uma guerra civil. Não há o projeto de tomar o poder e instituir um novo ordenamento jurídico, um dos fatores fundamentais que caracterizam tal situação. Além disso não há direitos suspensos. Esse papo de guerra civil só convém à direita, à elite que deseja continuar reproduzindo o sistema de concentração de renda que maximiza os lucros deles. O termo "guerra civil" passa uma noção de problema sem resolução, afinal são 2 grupos lutando PELO Estado. Aqui o problema tem solução, é difícil, mas não é impossível. Mas primeiro é preciso reconhecê-lo.
Vlw!
Bia