sábado, 5 de abril de 2008

O rei da selva de pedra

Era mais um domingo de sol escaldante no verão do Rio de Janeiro, estava chegando na minha casa, que fica em Copacabana, Zona Sul da cidade, depois de mais uma sagrada partida de futebol e fui direto tomar aquele banho relaxante, relembrando os momentos de “futebol arte” daquela partida.
Entrei no banheiro, tirei a roupa, liguei o chuveiro e foi aí que me deparei com ele: o ser vivo mais temido desta selva de pedra, o mosquito. Confesso que o meu desespero foi tão grande que naquele momento não consegui identificar se era o mais temível deles, o Aedes Aegypti. Entrei em estado de choque, não sabia o que fazer, o inseto passava voando bem próximo ao meu corpo e minha única reação era desviar. Ficamos ali uns cinco minutos, cara a cara, ele voando ao meu redor e eu apenas ziguezagueando a sua frente.
Percebendo que daquela forma seria uma questão de tempo até que o inevitável acontecesse, consegui me acalmar um pouco e vi que na pia havia um jornal, antes de pegá-lo ainda consegui ler a manchete que dizia “Zona Sul já vive epidemia de dengue”, pronto estava confirmado, realmente o meu duelo era com ele, o temível Aedes. Peguei o jornal, dobrei-o e tentei o primeiro ataque, passou perto, mas com muita habilidade o mosquito conseguiu desviar, tentei mais dois golpes e nada de acertá-lo, pronto, já não sabia mais o que fazer.
Naquela altura dos acontecimentos, já me encontrava desesperado, estava quase desistindo de lutar, sabia que a picada final seria uma questão de tempo. Mas é nesses momentos que surge sempre mais uma idéia, corri para baixo do chuveiro e liguei a água, sabia que ali ele não me pegaria, talvez se fosse uma banheira com a água parada, mas ali debaixo do chuveiro com ela correndo pelo meu corpo ele não conseguiria.
Fiquei ali por mais ou menos 15 minutos, sempre atento e sem tirar o olho do mosquito. E foi no único vacilo dele que cheguei à vitória neste embate. Não sei se por cansaço, até porque não sei se mosquito se cansa em voar, ou por desatenção, ele pousou na parede, não pensei duas vezes e dei uma raquetada com a mão direita e ele não resistiu, ficou esmagado na palma da minha mão.
O pior de toda essa história é saber que muitas pessoas estão passando pelo mesmo desespero que eu, muitas delas acabam não tendo a mesma sorte e são contaminadas pela dengue. Sei que é muito importante a consciência de todos, mas o mais importante nesta história é a participação dos nossos governantes, é inadmissível que estejamos passando por mais uma epidemia, que aliás, demorou muito a ser assumida por eles, sendo que todo ano passamos por isso e nada é feito para a sua prevenção.
Ainda estamos lutando contra a dengue, mas já tínhamos que ter uma política de curto e longo prazo, também pensando na que virá ano que vem, ou alguém tem dúvidas de que no próximo ano vamos ser atingidos novamente e provavelmente com ainda mais força. Mas ao invés disso o que temos que ver é o nosso prefeito, esse mesmo que não tomou as medidas preventivas, primeiro negar a epidemia e depois ir para a Bahia rezar para o mosquito ir embora.

6 comentários:

Leo Saoli disse...

Realmente o estado é de tensão geral, não há uma pessoa sequer que não esteja preocupado, preocupado não, com medo de uma situação parecida com esta...
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Na minha opinião, a prefeitura se omitiu.
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abs.

janaina disse...

Excelente texto!
Eu que adoro ditados, nesta questão da dengue tem um que se encaixa perfeitamente:"melhor prevenir do que remediar". Mas em se tratando de Brasil, ficamos mesmo com o "vamos ver que bicho vai dar!"
Bjsss

Fred Alencar disse...

Meus nobres!!!
Travo esta batalha todos os dias pela manhã. Antes de tomar banho, mato pelo menos uns 4 mosquitos sem saber se são dengosos ou não. Meto bala. Como disse um médico respeitado num programa fraco da TV: "É impensável um cidadão morrer por causa de um mosquito em pleno século XXI"

Culpa dos governantes...sim. Culpa da população também que resiste em não se precaver.

sds,

Bruno Rodrigues disse...

Muito bem escrito Guga, no inico até pensei que tivesse sido o Leo o escritor (não por duvidar de vc, é que nunca li um texto seu aqui mesmo), mas quando li algo sobre futebol arte logo vi que tinha algo errado neste texto, fiquei confuso, só depois de le-lo na integra percebi que o grande escritor era vc, mas a confusão continuou, futebol arte? hehehe

O que esperar de um governante que tenta resolver os problemas da população que governa com reza? Aproveite que vc está mais proximo, e pede pro nosso prefeito rezar também para ninguem mais morrer na fila de um hospital por falta de atendimento, ninguem morrer soterrado em uma enchente, ninguem passar fome e que todos tenham uma moradia descente, quem sabe pedidndo com bastante força pra Deus ele não consegue!

Para a Jana que gosta de ditados: Cada povo tem o governante que mereçe!!!

saudações a todos, espero meu adversario para a final do carioca sentado tomando chopp e vendo TV :)p

Anônimo disse...

É meninos, a situação não tá fácil não...todo cuidado com o "Rei" é pouco. Lembremos de tudo isso em outubro quando as eleições chegarem!!!!
Mais do que postar minha opinião, vim aqui registrar meu orgulho destes meninos, que viraram gente grande falando de coisa séria, mas sem perder nunca o bom humor...tem sempre uma "pelada" ou uma "viagem" como pano de fundo destes textos ótimos.
Assim como o Bruno confundi o autor do texto, mas serviu para mostrar que também se reflete nos textos esse ponto que vocês têm em comum... a mente "viajativa"...hehehehe!!!!
Continuem assim meninos!!!!!
Bjos p/ todos!!!
Roberta.

Clarissa disse...

Guga, o mosquito da dengue e os surtos da doença só servem para evidenciar - ainda mais - a precariedade da saúde pública e do saneamento básico no nosso estado. Além disso, o comprometimento dos gestores em saúde, dos profissionais que estão na ponta do atendimento e da população também deixa muito a desejar. Enquanto nós tivermos nosso plano de saúde privado, nosso bairro com rede de esgoto e água encanada, não saberemos a importância das políticas de saúde pública e, provavelmente, não lutaremos por melhores condições para todos.