segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Hollywood é aqui

- Perdeu, maluco!! Perdeu.
- Coe, não atira não. Porra!!! Não atira.
- Perdeu. Não corre não. Perdeu!
- Coe cara. Não atira porra.
- Não corre!!! Vou atirar!!!
Pá!!!

E foi assim que eu acordei nesta última quarta-feira. Sonho? Não. Realidade. Bem embaixo da minha janela. Tão acostumado com a violência urbana, que não me assustei com o tiro. Só acordei. Puto já. Por ter sido acordado antes da hora. E ainda mais por causa de violência. E então, na maior calma, me levanto e vou até a janela ver o corpo estendido no chão. Assim que aponto a cabeça para fora do prédio mais um susto. Não era realidade. Era ficção. Às 9 da manhã de uma quarta-feira, sem avisar a ninguém, começou a ser rodado um filme bem embaixo da minha janela. E mais um filme sobre violência, com certeza. Não me preocupei em saber o nome do longa-metragem ou curta, e nem quando iria ao ar. Apenas me perguntei: Mais um filme sobre violência? Sim. Mais um. Virou moda. Fazer e ganhar muito dinheiro com a audiência de quem sofre tais ataques. Começou com o brilhante “Cidade de Deus”. Antes teve o “Homem do Ano” e agora o não mais revelador “Tropa de Elite”. Todos com o mesmo cunho no roteiro. Verdade urbana carioca. Ou seja: Caos. E pelo visto vem mais por aí. Fiquem tranqüilos. Vem mais por aí. “Assalto à padaria da Sousa Lima”. Quem sabe esse é o nome do novo filme? E essa padaria já foi assaltada de verdade várias vezes.
Toda essa onda de filmes ”realistas” tem um só motivo para fazer tanto sucesso. Público. Sejam os que sofrem na pele ou os que sofrem (muitos nem isso sentem) pela TV, todos adoram esse tipo de filme. E não é porque é sobre violência pura e simplesmente. O que chama a atenção desse povo é a violência cotidiana que todos nos vivemos. Dizem os cientistas e antropólogos que isso ocorre porque o ser humano precisa saber como “fulano de tal” se deu mal para, aí sim, ele aprender o que não se deve fazer e não se dar mal como “fulano de tal”. Faz sentido. Mas há um exagero.
Se quiser saber como não “se dar mal” em determinadas situações é só ver os telejornais diários. Todo dia tem um monte de exemplo. Mas aí vem o problema. O real dói. O real dá medo. A ficção não. Ver gente morrendo a toa na tela do cinema não tem o mesmo impacto. É mais fácil. Talvez esse seja o segredo do sucesso. E por isso não param de fazer filme com essa abordagem. Até onde vamos? Não seria louco de afirmar nada, mas tenho duas teorias: Ou entramos de vez em guerra urbana, e aí o cineasta vai deixar de ser cineasta e se transformar em correspondente de guerra, ou seremos um dos maiores produtores de filmes bang-bang do mundo. Será?
Hollywood é aqui, gente. Só que sem dublê!!!!

7 comentários:

Ana Helena disse...

"Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma." Eu sei, mas não devia (Marina Colasanti)

A gente se acostuma com a violência... com os corpos nas calçadas... com o sentir medo... Talvés todos esses filmes sejam uma forma de não se acostumar, de tentar resgatar alguma revolta dentro de cada um de nós...

Beijos

Fred Alencar disse...

Excelente texto. Quem deseja um mínimo de sobriedade e clareza da vida tenta não se acostumar. Mas até isso vira um costume.
O que fazer?
Não sei. Se soubesse seria um semi-Deus!!!

Ana helena disse...

Eu me entrego ao costume de não me acostumar com tudo que discordo e que não é do bem...

;)

Leo Saoli disse...

A gente se acostuma a ignorar o acostumado, a seguir em frente, nos acostumamos a fechar os olhos para miséria... e a entristecer com isso. Somos miseráveis em virtudes, poucos estão dispõstos a uma vida dedicada realmente a mudar o curso da degradação do mundo. Eu mesmo não conheço ninguém!

Ana Leticia disse...

Muito bem colocado Fred! Fico impressionada com a capacidade de se acostumar do ser-humano. Pensando em nem muito tempo atrás, vamos lá, há dez anos atrás, o que vc acharia se um amigo seu te falasse?
"Roubaram um carro ontem lá na minha rua deram três tiros de um Fuzil na cabeça da mulher!"
"Ih, não sai na rua não pq tá tendo arrastão de moto. Sabe, ontem a polícia resgatou todas as motos do morro, então eles desceram pra buscar mais"
Isso seria um absurdo e hoje é plenamente normal.

-Levou três tiros de fuzil é? Ah! Mas que idiota!O que que ela queria tbm?! ela reagiu! devia ter dado logo o carro! Isso que dá ficar se prendendo às coisas materiais!

Pense bem, essa não seria a sua resposta hoje?

-Levaram meu carro ontem. Zerinho, tinha comprado na semana anterior, nem tinha feito o seguro do carro ainda.
-Ah mais que bom! Você pelo menos não perdeu a vida!

Normal?! Isso não é normal!!! Não é normal morrer com um tiro no meio da rua, voltando do trabalho e ainda com direito a platéia. Não é normal "perder" o que, com tanto sacrifício, lutamos pra comprar! Não é normal sequer seguro do carro!!! Temos que pagar uma taxa para assgurar o que é nosso por direito?!
Isso tudo só me faz chegar a uma conclusão. Não temos nada! Absolutamente nada é nosso! Pq quando os bandidos, os verdadeiros detentores do poder na nossa cidade, quiserem, eles terão tudo o que é nosso, ou melhor, deles.

Fred Alencar disse...

É verdade Lê. O nome disso é conformismo e/ou banalização da violência.
Não vejo como isso pode mudar. Parace um fenômeno invisível. Cabe a nós, formadores de opinião, não deixarmos esse assunto morrer ou virar papo furado.

janaina disse...

O que vemos nestes filmes que tratam da violência é “tudo realidade”. Quem nunca escutou alguém comentando entusiasmado sobre o filme Tropa de Elite e dizendo: “ é a pura realidade irmão, é o que ta acontecendo lá fora, sabe qual é?”
Com certeza, se este não for o principal motivo, a demonstração do real é uma das coisas que levam multidões a assistirem este tipo de filme e a terem a repercussão que assistimos com Tropa de Elite.
O por que do gosto pelo real? Não sei...acho que é mais ou menos assim: queremos ver a realidade para, ao menos por um instante, lembrar que ela existe; e como se gostássemos sim de sofrer um pouco ao pensar nestas coisas – na violência, na injustiça, até de como somos alienados, de como não fazemos nada para mudar a situação atual – mas só um pouquinho! Só até alguém te chamar para jogar uma bola ou tomar um chopinho, quando aí tudo volta ao normal, e nos enfurnamos no nosso mundo paralelo, fugindo novamente do real.
A violência, apesar de estar na ordem do dia, falada a todo tempo pela mídia, sempre existiu, nas suas mais variadas formas: a violência doméstica, a violência política, policial, a violência por melhores condições de vida, a verbal. O ser humano é um ser violento!
Porque será então que só falamos na violência dos traficantes?
Em uma vara de família o número de mulheres espancadas (às vezes até a morte) pelo marido é estrondoso!
Devemos pensar então, até que ponto essa mídia quer usar esta violência para mascarar o real problema. É como se com o fim da violência tudo estivesse resolvido! Ou seja, é a sociedade contra o bandido, o bem contra o mal, num maquiavelismo exacerbado.
E assim, por nos preocuparmos tanto com esta violência, não pensamos no que realmente leva a ela e o que ela representa, apenas queremos a todo custo que ela acabe, como num passe de mágica!
Por fim, lembrando o texto da Ana, nós realmente nos acostumamos sim com a violência (o que não deveríamos), mas antes disso, nos acostumamos com a situação destas pessoas “que fazem a violência”, com a desigualdade social, racial, cultural, intelectual e financeira que elas sofrem...e acho que isso que não deveríamos ter nos acostumado nunca!